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quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Eu comi um rato

Qual a sua maior aventura gastronômica?


Em qual momento você vacilou, pensou, olhou 20 vezes para o prato na sua frente, até ter coragem de provar o que estava sendo oferecido?
Afastar o preconceito e aventurar-se nos sabores não é fácil. Requer uma boa dose de coragem, disposição e mente aberta. Você pode conseguir ou não, gostar ou não, terminar o prato, repetir ou nem conseguir engolir a primeira garfada. Mas será, sempre, uma experiência inesquecível.

Particularmente, sou bastante aberta a surpreender meu paladar, especialmente em viagens. Antes mesmo de chegar ao destino, já sinto o gostinho dos pratos que quero provar. A gastronomia é, sem dúvida, um dos maiores atrativos turísticos.
Não foi diferente quando cheguei à Serra Equatoriana. Ao contrário da costa, é a parte que se mostra mais típica, e que se revela como a idéia pré concebida que temos dos países andinos. Ao lado da altitude, que é um atrativo à parte, a herança indígena está super presente: na fisionomia da população, na língua, no artesanato, na dança, na vida social, e na culinária.
Pra entrar no clima, resolvi criar coragem e provar o famoso cuy, que nada mais é do que o porquinho da índia (aquele mesmo, fofo, que a gente cria em casa) assado inteiro no espeto.

Dica certa em todos os guias de viagem, descobri que o cuy, além de ser o prato mais típico daquela região, é uma prato de festa. Iguaria servida em ocasiões especiais, de comemoração familiar, e caro para os padrões locais de preço.
Durante toda a viagem encontrei mulheres assando o porquinho na brasa, na beira da estrada, e fui me aconstumando à idéia de prová-lo na próxima refeição.
Soube que a grande maioria dos turistas não se atreve, por considerá-lo um rato assado. Será?

Depois de um árduo trabalho mental, consegui me convencer que um porco-da-índia não é um rato, e fiz o pedido no restaurante.
E ele veio.... inteirinho, com pele e tudo, olhando pra mim. Muito mais difícil, não é?
Se fosse desfiado, ou cortado em pedaços, seria muito mais fácil. Mas não. Era preciso encarar os olhinhos vidrados e a boquinha aberta, com dentinhos à mostra.
A hora H, e a cara de espanto da vizinha
Respirei, e entrei fundo de garfo e faca na mão.
Ainda bem.... ele era gostoso! A pele super crocante, bem sequinha. A carne, meio parecida com a de coelho. Só que ele é magrinho, tem muito pouca carne (como acontece com a codorna, por exemplo). Nada que eu me apaixonasse, ou repetisse. Mas valeu a pena a experiência.
Vai para a lista das coisas que provei, mas não me apaixonei (junto com os escargots).
E você, comeria?
Um beijo, e até a próxima aventura.




PS: Eu, ignorantemente, pensava que porco-da-índia e hamster era a mesma coisa. Não, não é. São duas espécies diferentes, com algumas peculiaridades que deixarei para os criadores e simpatizantes de plantão elencarem.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Ceviche com ketchup

Oi, gente!
Ceviche no almoço, com arroz e chifles de banana
Voltei. Depois de umas férias inesquecíveis, estou de volta ao batente, e ao blog.
Menos cansada, menos estressada, mais pobre, mais gordinha e imensamente mais feliz! Cheia de fotos, lembranças e histórias pra contar.
O Equador é um país surpreendente. Pequeno no tamanho, grande na diversidade. Uma mistura de povos, de culturas, de valores. De climas e paisagens tão diversos que até esquecemos que estamos no mesmo país. Sem nem uma moeda própria pra chamar de sua. Mas com uma unidade que é marcada pela história, pela língua e, sobretudo, pela gastronomia.
Como sempre, respirei e abri a mente, a boca e o coração para conhecer e captar todos os gostos e cheiros da metade do mundo. Sem preconceitos, sem julgamentos, mas procurando encontrar, especialmente, a história daquilo que me estava sendo oferecido, a origem daquele sabor, a influência por trás daquele prato.
Foi assim por quase um mês. Do mais trivial ao mais sofisticado. Da comida normal cotidiana ao jantar de gala. Algumas delícias, algumas surpresas, algumas decepções.
Por isso, teremos muitas novidades para compartilhar por aqui.


Pra começar, a costa equatoriana. A região ainda traz um grande ranço da dominação econômica e ideológica americana. Os Estados Unidos estão no horizonte coletivo, e no sonho de consumo de cada um. Por outro lado, o mar gelado do Pacífico recheia a dieta alimentar, e o pequeno espaço disponível para pecuária faz disparar os preços da carne bovina. Na base produtiva, um monte de fazendas de camarão, e barcos de pesca de todos os tipos e tamanhos. Dá pra imaginar que o forte por lá são os frutos do mar. Ainda bem, porque eu adoro!
Ceviche equatoriano de camarão
De cara, encontrei, em cada esquina, o ceviche! Logo eu, que adoro ceviche. Inocentemente, imaginei que, pela proximidade com o Peru, entraria no terreno seguro de um prato conhecido e apreciado. E, ainda mais ingênua, acreditei que comeria ceviches nos restaurantes, como entrada no almoço ou prato principal no jantar. Aquele velho conhecido, cozido no limão, e temperado com bastante cebola.
Lêdo engano.
O ceviche equatoriano é completamente diferente do peruano. Ponto comum entre os dois é a excelente qualidade dos ingredientes. Em todos os que comi (e foram vários!), o peixe era fresquíssimo, o camarão espetacular, e o polvo macio como nunca. Mas parava por ai.
Carrinho de ceviche na rua.
O mais importante é que, no Equador, o ceviche é um prato popular, mas popular de verdade. Comida de rua, de trabalhadores, vendida na praia. Pode ser encontrado tanto em restaurantes caros, como nos mais simples, e também no meio da rua. De peixe, camarão, caranguejo, polvo, mariscos ou o que mais estiver disponível, tudo junto ou separado. E é vendido em carrinhos iguais aos de cachorro quente, com os ingredientes em potes plásticos; o prato é montado na hora, ao gosto do freguês. Sabor e proteína a módicos 5 dólares. Achei o máximo!
Ao contrário do peruano, os ingredientes principais (pescados, frutos do mar) são pré-cozidos. Mas só um pouquinho, porque permanecem bem macios. Além disso, vem cheio do molho ácido, num prato fundo, como uma sopa rala. 
Um desses a cada 100m de areia
Pra acompanhar, chifles de banana, outra coisa que é a cara daquele país, e que acompanha quase metade de todos os pratos. Nada mais do que finas e crocantes fatias de banana frita, como um salgadinho. O pessoal de lá geralmente vai quebrando a banana e colocando tudo dentro da cumbuca do ceviche, comendo tudo junto. Confesso que preferi comer separadinho mesmo.
Não é só. O ceviche pode ser comido a qualquer hora, e se for a sua escolha pro almoço, virá acompanhado também de uma porção de arroz branco, que você também deverá por dentro do prato fundo de ceviche.
Mas lá pras bandas da praia, ele é comida de café da manhã! Sim, o café da manhã regional, típico, é ceviche. Um bom prato de ceviche com chifles de banana. Energia pro dia todo.
Parada pro café da manhã
Como se não bastasse o espanto de comer ceviche no café da manhã, todos, sem exceção, temperam o prato com.............ketchup! Não consegui acreditar. O mais puro exemplo da mistura da gastronomia tradicional equatoriana com a influência americana.
Confesso que me neguei, por muito tempo, a fazer isso. Primeiro, porque nem sou tão fã assim de ketchup. Segundo, porque achei um absurdo estragar um prato tão saboroso, com ingredientes de primeira, desta forma. Mas vi, todas as vezes, todo mundo colocando.
Este já veio com ketchup
Até o dia em que fomos todos tomar café da manhã num restaurante chamado Arbolito. Ceviche pra todo mundo, e eles já vieram, todos, com ketchup. Não tive como escapar, e terminei experimentando. Taí a foto pra comprovar.
Tenho que dar a mão à palmatória: não fica ruim. Pelo contrário, o docinho do ketchup vai um bom contraponto ao forte tempero do ceviche. Mas ainda assim prefiro a minha versão não americanizada.

Será que alguém se habilita a provar???
De qualquer forma, vou torcendo para que o ceviche, peruano ou equatoriano, se torne mais popular (e, consequentemente, mais barato) por aqui.
Esta é apenas a primeira das novidades. Afinal, não há como negar que comer ceviche com ketchup, no café da manhã, foi uma aventura.
Já estava com saudades de vocês!
Compartilhar a experiência torna muito mais legal tudo o que é vivido.
Um beijo!